O artigo abaixo foi publicado na versão eletrônica da Scientific Americam Brasil.
SE OS SERES HUMANOS TIVESSEM SIDO FEITOS PARA DURAR.
Para vivermos mais tempo, deveríamos ter corpos distintos dos que a natureza desenhou.
JAY OLSHANSKY, BRUCE A. CAMES e ROBERT N. BUTLER
Discos abaulados, ossos frágeis, quadris fraturados, ligamentos rompidos, veias varicosas, catarata, perda da audição, hérnias e hemorróidas: a lista das mazelas corporais que nos afligem à medida que envelhecemos é longa e muito familiar. Por que caímos em pedaços exatamente ao chegar no que devia ser o apogeu da vida?
As máquinas vivas que chamamos de corpo deterioram porque não foram projetadas para funcionar durante muito tempo e porque agora nós as obrigamos a continuar em atividade muito depois de expirada a sua data de validade. O corpo humano tem grande beleza artística, estando realmente à altura de todo o assombro e admiração que desperta. Mas, do ponto de vista da engenharia, é uma rede complexa de ossos, músculos, tendões, válvulas e articulações que tem uma analogia direta com as polias, bombas, alavancas e dobradiças das máquinas, todas falíveis. à medida que avançamos em nossos anos pós-reprodutivos, as articulações e outras características anatômicas que funcionam bem ou não causam problemas na juventude revelam suas imperfeições.
Desgastam-se ou contribuem de alguma outra forma para os problemas de saúde que se tornam comuns mais tarde.
Em termos evolutivos, temos defeitos porque a seleção natural, a força que molda nossos traços geneticamente controlados, não tem por objetivo a perfeição ou a saúde permanente. Se o projeto de um corpo permite aos indivíduos sobreviverem tempo suficiente para se reproduzirem (e, nos organismos humanos e vários outros, criar a prole), esse será o projeto escolhido. Isto é, os individuos robustos o bastante para se reproduzir vão transmitir os seus genes - e, por conseguinte, o projeto de seu corpo - à geração seguinte. Projetos que ameacem seriamente a sobrevivência na juventude serão eliminados como ervas da-ninhas (pela seleção natural) porque os indivíduos mais afetados vão morrer antes de ter a chance de produzir descendentes. Mais importante ainda: peculiaridades anatômicas e fisiológicas que só se tornem incapacitantes depois que o indivíduo se reproduziu vão ser disseminadas. Por exemplo: se o projeto de um organismo leva ao colapso total aos cinqüenta anos, mas não interfere com a reprodução antes disso, ele vai ser transmitido apesar das conseqüências perniciosas que terá mais tarde.
PROJETO DE CABEÇA
Várias partes da cabeça e do pescoço se tornam problemáticas com uma regularidade incômoda à medida que as pessoas envelhecem. Pense no olho. A versão humana é uma maravilha evolutiva, mas sua complexidade cria muitas oportunidades para as coisas darem errado quando se tem uma vida longa.
Nossa visão diminui à medida que o líquido protetor da córnea vai perdendo a transparência com o passar do tempo. Os músculos que controlam a abertura da íris e a focalização das lentes atrofiam-se e perdem a receptividade, e a lente engrossa e amarela, reduzindo a acuidade visual e a percepção das cores. Além disso, a retina - responsável pela transmissão de imagens ao cérebro - pode se descolar com bastante facilidade da região posterior do olho, levando á cegueira.
Muitos desses problemas seriam difíceis de resolver, mas o descolamento da retina sugere uma solução que poderia ser usada para evitá-la. Algumas modificações anatômicas também poderiam preservar a audição dos idosos.
O projeto sub-ótimo dos sistemas respiratório e digestivo superior faz da asfixia um outro risco para os idosos. Um rearranjo simples resolveria o problema, mas criaria outros.
CHAMEM O ENCANADOR!
Examinando a anatomia da próstata de um homem, um encanador experiente suspeitaria de um trabalho de aprendiz, porque a uretra, o tubo que leva à saída da bexiga, passa bem no meio da glândula. Essa configuração talvez tenha benefícios desconhecidos até agora, mas acaba provocando problemas urinários em muitos homens, inclusive um fluxo fraco e a necessidade de urinar com freqüência.
As mulheres também enfrentam problemas de encanamento à medida que envelhecem, principalmente a incontinência. Muito desconforto teria sido poupado a ambos os sexos se a evolução tivesse feito algumas modificações simples no desenho anatémico.
Se tivéssemos sido projetados para funcionar durante mais tempo, deveríamos ter menos defeitos que nos deixam relativamente incapazes em nossos últimos anos. Mas não é assim que a evolução funciona. Na verdade, ela faz enxertos de novas características, incorporando-as às já existentes.
A postura ereta dos seres humanos é um dos casos em pauta. Foi adaptada a partir de um projeto corporal que fazia os mamíferos andarem de quatro. Não há dúvida de que esse enxerto ajudou nossos primeiros ancestrais hominídeos; supôe-se que ficar de pé sobre as patas traseiras tenha promovido o uso de instrumentos e aumentado a inteligência. Desde então, nossa coluna vertebral sofreu algumas adapta��es em fun��o dessa mudan�a esquisita: as v�rtebras inferiores ficaram maiores para suportar a maior press�o vertical, e nossa coluna curvou-se um pouco para nos impedir de cair para a frente. No entanto, esses consertos não evitaram uma s�rie de problemas decorrentes de nossa postura b�pede.
E SE...
Recentemente, nàs tràs come�amos a refletir sobre como seria o corpo humano se ele tivesse sido constru�do com o objetivo espec�fico de ter uma vida longa e saud�vel. As revis�es anatômicas descritas nestas péginas s�o fantasias incompletas. Apesar disso, resolvemos apresent�-las para chamar a aten��o para uma quest�o s�ria. O envelhecimento costuma ser definido como uma doen�a que pode ser revertida ou eliminada. Na verdade, muitos fornecedores de juventude em vidrinhos gostariam de nos fazer acreditar que os problemas m�dicos associados ao envelhecimento s�o culpa nossa, decorrentes principalmente de nosso modo de vida decadente. � claro que qualquer idiota pode diminuir a dura��o de sua vida.
Mas � absolutamente injusto culpar as pessoas pelas conseq��ncias de herdar um corpo que não tem sistemas perfeitos de conserto e manuten��o e que não foi concebido para um uso prolongado ou para ter sa�de permanente. Continuar�amos nos desgastando com o passar do tempo mesmo que um modo de vida ideal, m�tico, pudesse ser identificado e adotado.
Essa realidade significa que o envelhecimento e muitos de seus transtornos concomitantes não s�o antinaturais, nem evit�veis. Nenhuma interven��o simples compensaria as in�meras imperfei��es espalhadas por toda a nossa anatomia e que s�o reveladas pela passagem do tempo. Mas temos confian�a em que a ci�ncia biom�dica vai ter condi��es de amenizar certas doen�as trazidas pelo tempo. Os pesquisadores est�o identificando rapidamente (e discernindo a fun��o de) mir�ades de nossos genes, desenvolvendo rem�dios para control�-los e aprendendo a canalizar e aumentar as extraordin�rias faculdades de recupera��o que já existem em nosso corpo. Esses avanãos incr�veis v�o acabar compensando muitos dos defeitos de concepé�o contidos em todos nàs.
ANDAR DESSE JEITO
Muitas das enfermidades debilitantes e até fatais do envelhecimento decorrem em parte de nossa locomo��o b�pede e da postura ereta - ironicamente, as mesmas características que possibilitaram o florescimento da espécie humana. Cada passo que damos coloca uma press�o extraordin�ria em nossos pàs, tornozelos, joelhos e costas - as estruturas que sustentam o peso de todo o corpo acima delas. No decorrer de um �nico dia, os discos da parte inferior das costas s�o submetidos a press�es equivalentes a v�rias toneladas por cent�metro quadrado. Ao longo da vida, toda essa press�o cobra o seu tributo, assim como o uso repetitivo de nossas articula��es e o esfor�o constante que a gravidade impée a nossos tecidos.
Embora a gravidade tenda a nos derrubar no fim, temos de fato algumas características que combatem sua for�a onipresente. Por exemplo: uma rede intrincada de tend�es nos ajuda a conectar os �rg�os � coluna vertebral, impedindo-os de cair e de imprensar uns aos outros.
Mas esses recursos anatémicos - como o corpo em geral - não foram feitos para durar para sempre. Se a longevidade e a sa�de permanente tivessem sido o objetivo principal da evolução, características como estatura menor, parte superior do tronco inclinada para a frente, caixa tor�cica com mais costelas, ossos mais grossos, joelho capaz de dobrar para tràs, mais gordura e músculos, pescoço curvo com v�rtebras maiores e tend�es também maiores, teriam se tornado lugar-comum.
Os autores
S. JAY OSHLANSKY, BRUCE A. CARNES e ROBERT N. BUTLER interessam-se todos há muito tempo pelos processos subjacentes ao envelhecimento humano. Olshansky � professor da Escola de Sa�de P�blica da Universidade de Illinois, em Chicago. Ele e Carnes, ambos profissionais antigos do Centro de Pesquisa de Opini�o Nacional/Centro de Envelhecimento da Universidade de Chicago, colaboram em estudos - financiados pelo Instituto Nacional de Envelhecimento (INE) e pela Administra��o Nacional Aeron�utica e Espacial - sobre a biodemografia do envelhecimento (exame das raz�es biol�gicas para os tipos de doen�as e morte relacionadas com a idade). S�o co-autores de The Quest for Immortality: Science at the Frontiers of Aging (A Busca da Imortalidade: A Ci�ncia nas Fronteiras do Envelhecimento) (W. W. Norton, 2001). Butler � presidente do Centro Internacional de Longevidade da cidade de Nova York e membro fundador da INE.
Para conhecer mais
On Growth and Form. D'Arcy Wentworth Thompson. Edi��o aumentada, 1942 (reimpress�o de Dover Publications, 1992).
The Panda's Thumb: More Reflexions in Natural History. Stephen Jay Gould. W. W. Norton, 1980.
The Blind Watchmaker: Why the Evidence of Evolution Reveals a Universe Without Design. Richard Dawkins. W. W. Norton, 1986.
The Scars of Evolution: What Our Bodies Tell Us About Human Origins. Elaine Morgan. Souvenir Press, 1990. (Reimpress�o de Oxford University Press, 1994).
Why We Get Sick: The New Science of Darwinian Medicine. Randolph M. Nesse e George C. Williams. Random House, 1994.
O site de Olshansky e Carnes � www.thequestforimmortality.com
O site do Centro Internacional de Longevidade � www.ilcusa.org
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